terça-feira, 15 de maio de 2012

Hm.

Estava tudo desinteressante naqueles dias. Os papos eram os mesmos, assuntos que nunca variavam e entediavam a quem necessitava de movimento o tempo todo. Queria uma nova história pra contar pros netos, (quando esses existissem) mas só conseguia adicionar dias a mais.
Rotina. Do ponto 1 pro 2, pulando pro 3, as vezes 4 e logo voltando pro 1. As novidades que apareciam aborreciam mais do que entusiasmavam.
Vinha novidade de quem abria a boca sem que pedissem, de quem dava opinião sem fundamento, do rebelde sem causa, da rebelde sem causa e também dos com causa, mas uma causa que só os que não tinham uma pra si seguiam. Tava chato.
Procurou de tudo, novas ruas, novas roupas, novas distrações, só que o tempo era mínimo pra se fazer o que queria. Como ocupar a criatividade e exercitá-la sem tempo pra mesma? Só apareciam coisas retas, sem nenhum charme, equações que resolvia sem paciência e acabava errando por falta de vontade de resolvê-las.
Falta de vontade era a maior questão. Não queria encarar a mesma folha em branco todo dia tendo que preenchê-la segundo um modelo. Inventar um novo modelo parecia fora de questão e fugir, mesmo que por pouco tempo, trazia consequências ruins.
Todos viraram mímicos quando deveriam ter virados malabaristas. Viraram marionetes quando deveriam ter virado trapezistas. 
Talvez no fundo todos achassem tudo uma chatice, mas não existia meio de fugir dali então se conformaram em perder alguma coisa a troco de um momento variado, mas o sujeito em questão não queria perder o foco.
Tudo coincidia no mesmo dia e aí os 10 segundos que havia separado pra esquecer que vivia, já não podiam ser preenchidos por isso.
Queria socar o relógio, extrair uns segundos pra si pois 24 horas não eram mais suficientes.
Parede cinza, roupa cinza, pensamento cinza, folha cinza, cinismo cinza... funcionava tudo assim. Resolveu pendurar uma placa colorida no pescoço: "Me entretenha e faça o dia."

terça-feira, 10 de abril de 2012

Ponto final.

O chão parecia um ponto. Mas ainda estava perto o bastante. Dentro de segundos o corpo bateria ali, não iria atravessá-lo, não iria ser amortecido, apenas bateria ali, doeria.
Estava chegando perto, o ponto ia se alargando e era possível imaginar o fim do túnel, o fundo do poço. E acostumado a ideia de se perder pra sempre, pareceu até obra divina o fato de parar e por um segundo entrar em qualquer tipo de universo paralelo, onde imaginar ou criar um outro final era possível.
Nem acreditava na porção de alternativas que apareceram, nem acreditava que poderia ser salvo, que poderia guardar nem que fosse pedaços do corpo. Estava num lugar diferente, não planejado e nem ideal, mas diferente a um ponto de ser bom, a um ponto de conseguir se acostumar.
Mas o que poderia ser a salvação de tudo, poderia fazer com que certas partes do todo se perdessem, partes essenciais pra sobrevivência. Já não sabia se iria se lançar no abismo de novo, se tentaria viver sem o essencial, se arriscaria achar algo melhor mais perto do fim... já não sabia nada. O corpo cheio de dúvidas, vazio de compreensão, vazio de estima, de carinho, proteção. Um corpo, só um corpo cheio de problemas e nenhum objetivo.
Fechou a janela da nova oportunidade por medo.
E não encontrou mais nenhuma janela.
Mais nenhuma porta.
Mais nada.
E foi caindo.
Caindo
e
caindo
.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Deixe um post-it ao sair

A curiosidade é perigosa. Não só pelo fato de atiçar dentro da gente instintos primitivos (aquela velha relação de predador e sua caça) mas também por nos tornar bobos, mesmo os fortes, mesmo os sábios, cheios de palavras e pensamentos prévios. É, começam a se passar perguntas pela nossa mente como sussurros, de vez em quando uma opinião de anjo, outra vez a opinião de diabinhos que atormentam, pra uns apenas consciência.
"Foi por isso!" "NÃO, foi por aquilo!" Nosso cérebro se contradiz tentando decifrar qualquer sinal do outro, qualquer sinal do inferno que nos rodeia.
Quando alguém te procura você se surpreende. Fica a se perguntar o motivo. Assim como o cessar da procura alheia atiça uma procura de nossa parte, quando a gente pisca já estamos dentro da cena onde somos quem vai a luta
Sumiu sem dar notícias, por que? Falou 3 verdades ou 3 mentiras na minha cara, por que? Não fez o que prometeu, por que? Disse querer como eu e foi da boca pra fora, por que?
Respostas sempre foram escassas e nenhuma é verdade absoluta, a resposta esclarecedora pra você pode ser a dúvida do outro.
Sentimentos próprios já são incompreensíveis, espontâneos, uma vida dentro da nossa. E nos vemos num mundo onde temos que lidar com o dos outros também... o que é um tanto quanto complicado. Uma frase que pra você foi inerte, pro outro promoveu o caos.
É onde mora o perigo, de vez em quando palavras devem continuar no lugar onde foram pensadas, pra que não vire uma reação indesejada. Mas quem foi que disse que é sempre fácil segurá-las? É necessário, moderadamente, aturar uma chuva de coisas mal pensadas e imediatas dos outros. Teremos nossos momentos de perda e será que mereceremos que aturem? Prefiro fazer por onde.
Histórias mal contadas, uma após a outra. E de vez em quando o aviso prévio não é suficiente, já que somos aptos do "quem não arrisca, não petisca." A gente pensa "pelo menos tentei.", mas preferíamos um outro desfecho. Seria bom se fosse como um filme gravado, onde se pode pausar, passar adiante, voltar... mas não haveria aprendizado e muito menos erro, seria desinteressante. Seria bom poder fugir de situações sem precisar se trancar no quarto, sem ter que fugir do mundo inteiro evitando o pior, o julgamento virou qualidade ou característica humana faz tempo.
Chega de porta fechada na cara! Não terminei de falar, não terminei de explicar... e aí? Mais uma situação de fuga antecipada?
Fito o lugar onde estou e vejo lembretes práticos, mas porque não podem ser lembretes de que a realidade é uma afronta? Temos que começar a parar de vestir nossos medos, vestir um pouco de coragem. Sem mais vergonha na cara. Se for embora, deixe um post it ao sair.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Tudo misturado

Barulho. Dentro de sua cabeça o silêncio havia se perdido entre um grito e outro. Sentia como se seus pés não estivessem seguros em terra firme, que a qualquer momento vinha alguém pra se aproveitar de qualquer riso frouxo que ousasse estampar. Parou de sorrir, mesmo sabendo que deveria fazer exatamente o contrário. Já havia feito o tal contrário tantas vezes que estava cansada, suas estampas acabaram, tinha que dar a volta por cima de novo mas estava sem ideias. Pesquisaria no google mais tarde, talvez.
Certa vez haviam estendido a mão, ela sorriu, pensou que seria surpreendida por força do acaso, sorte. Que bobagem. Talvez fosse isso, ela não compreendia a necessidade de não amar que os outros tinham.
É isso mesmo? Em todo muro, em toda face, se lia: hipocrisia? Onde se clama por carinho, atenção e amor mas não se vê um palmo diante do nariz? " O amor pode estar do seu lado" já dizia Nando Reis, mas do seu lado ela só via quem procurava apenas tirar um proveito, um pedaço, levar o braço e não a mão. E aí? talvez faltasse essas surpresas da vida, faltasse tempo, faltasse gente boa, faltasse tanto aprendizado, pensamento, tanta filosofia, tanto.
Morando num lugar onde o eu te amo significava " na sua casa ou na minha?", cansou.
E mesmo que tentasse de vez em quando não ligar pra nada disso, não gostava de viver histórias vazias, um lance de uma noite, um beijo que não iria mais se repetir, talvez apenas não estivesse nessa fase agora. Sabia que de vez em quando um o vazio era necessário e preenchia o desejo, aquele "te vejo logo" que os dois sabem que é mentira. Só não queria de novo o mesmo filme. Insistia em mudar de televisão e não de canal. Agora havia aprendido? hahaha, lá ia ela de novo.
É só uma fase. Não queria se prender, não queria se largar, só queria uma instabilidade qualquer que não a esmagasse com um substantivo pro momento em que vivia. Um carinho, uma preocupação de vez em quando, um interesse de sua parte... nem sabia o que queria.
Precisava relaxar. Respirar um tempo grande sem preocupações. Seu time de confusões, precisava de novos jogadores, técnicos, torcedores, um novo campo. Ia começar ela mesma a levantar uma bandeira nova? Sei lá, sei lá... sua frase preferida. Não queria ter que prender o choro, não queria ter que esconder o que sentia. E olha só, mais um sei lá pra sua coleção de respostas.

domingo, 29 de janeiro de 2012

A voz do pensamento.

Foi só estranho. Não tinha mais sala cheia, nem conversa paralela, só tinha um ser, um ser só. Não sabia ligar a luz do quarto, resolveu deixar desligada mesmo e sentou no primeiro lugar que viu, estava com um cansaço enorme e com perguntas sem respostas na cabeça. Já havia fugido de todo mundo antes, tinha sentado na escada e observado a parede como se a cor vermelha fosse realmente interessante, até perceber que se isolar num lugar cheio de gente não serviria de nada. Mas dessa vez não tinha ninguém e nem nenhum barulho.
Teve medo, medo de seus próprios pensamentos que ameaçavam voltar com toda a força. E realmente o fizeram, fazendo com que se lembrasse não só desse abandono como de todos os outros. Talvez fosse fraqueza, drama, mas assustava.
A tentativa falha de chorar baixinho era perceptível, soluços que poderiam ser ouvidos a alguns metros de distância. O quarto rodava. Já estava quase tudo sob controle, quase tudo resolvido, mas parecia que sua cabeça estava fazendo questão de promover um arrepio pelo corpo inteiro de medo. Era medo mesmo. A imagem de tudo que evitava a uns meses voltava, parecia uma perseguição. E foi aí que constatou que o "esquecimento" tinha sido maquiado.
O que estava fazendo? Enganando sua cabeça por uns tempos? Se enganando. Procurava uma distração, uma fuga. Mas não estava sendo o suficiente, não estava ajudando. E aí? Não sabia o que queria.
Queria voltar no tempo, fazer tudo diferente. E sussurrava um "merda..." pois sabia que era impossível mudar o que o tempo já havia deixado pra trás.
Levantou e começou a andar pra ver se diminuía a intensidade de tudo, mas aquela casa escondia em cada canto uma lembrança. E de repente sua mente mostrava mais um flashback.
Foi fechando a mão com força e quando tudo aquilo estava no auge apareceu alguém, perguntando se estava tudo bem. Não estava, não estava mas... sorriu, era hora de fingir que estava.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Passatempo

Deitou ali e apagou a luz. Foi deixando entrar, invadir. Culpa. Medo. Insegurança. Saudade. Amor. Vontade. Um por um, entravam, faziam seu estrago, cenas e mais cenas que passavam por sua cabeça.
Tinha ido deitar tarde depois de ter refletido muito, colocou sua música no volume mais alto, rezando para que aquilo fizesse com que os pensamentos ficassem mudos. Não obteve sucesso, eles gritavam.
Alternavam os bons com os ruins, os bons sempre com o pé no mundo imaginário, mistura de coisas impossíveis.
Imaginava estar nos pensamentos de um outro alguém com a mesma facilidade em que desimaginava.
E queria estar perto, queria sentir que queriam sua presença.
Visualizou todas as suas perguntas sem resposta, já havia passado uma hora.
Ameaçou pensar algo bom, mas assim como existem grandes conspirações, começou a tocar no aleatório a única música que não podia tocar.
Lembrou. Passou o filme que sua cabeça havia favoritado fazia meses, só passava aquele. Já não queria mais saber daquela história, aliás, havia abandonado uma série de pensamentos sobre o tal fato, mas não conseguia abandonar as centenas de dúvidas que ficaram. Veio um vazio, aquele que dá quando sabemos que algo não pode ser resolvido, alterado ou deletado.
Suava. Aquilo de um certo modo afetava todas as funções de seu corpo. 
" Vai, pensa em algo bom que isso some." E forçava qualquer coisa.
Pensava no quão bom havia sido aquela vez em que demonstraram alguma coisa, mas com um riso sarcástico pra si mesmo constatava que havia sido pouco, havia sido muito pouco.
" Foi bom enquanto durou." Mas durou o tempo de piscar os olhos, fugiu. Eram boas e poucas lembranças, não eram as melhores, poderiam ter sido.
Fechou os olhos, respirou fundo, levantou, andou pelo quarto por 30 minutos que pareceram segundos. Era de madrugada, o sono já havia chegado mas parecia fraco perto dos problemas que circulavam.
Veio o flash de um sorriso, de um cheiro. Parecia poder sentir o abraço. Veio também a lembrança de um pedido de desculpas, de uma ou duas chateações e decepções corriqueiras.
Sensação ruim, uma pressão no peito, perdia o fôlego.
Estava com frio, resolveu desligar o ar condicionado. Pensou mais, o tempo suficiente pra sentir calor e ligá-lo novamente.
Abriu a persiana e o sol já estava lá fora, num clima diferente do que batia ali dentro. Fechou, preferia seu escuro.
Estava com dor no corpo inteiro, nervoso e tenso. Escolheu um álbum de um artista qualquer, fechou os olhos.
Acordou horas depois, com um grito de uma música qualquer. Deu pause, respirou fundo umas três vezes e desmaiou no travesseiro. 
O saldo foram duas olheiras gigantes ao acordar e nenhuma resposta. Só restava ir dormir de novo.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Um começo


Era noite de ano novo. Era aquele cheiro de coisa boa contagiando os narizes das milhões de pessoas que aguardavam boas notícias. Aquele mar de branco, os risos contagiantes. Era ele ali sozinho, vendo a felicidade de todo mundo parecer maior apenas por se o único triste. Agora já era, aquele ano novo marcava nele qualquer sensação ruim, ele nem sabia o motivo de estar ali aguardando as 12 badaladas.
Sentado nas pedras da praia que logo mais celebraria a entrada de algo próximo mas que ele temia, fitava os navios onde quem tinha sorte, havia embarcado e pensava em nada. Estava apático.
Nada prendia sua atenção pois nada causava qualquer efeito, e ele segurava o choro pra não parecer fraco. Mas que ano... um ano onde tanta coisa deu errado que ele havia perdido a esperança no que ainda não se conhecia. Um ano onde tanto dele havia morrido.
E ele estava ali "comemorando" com a única pessoa que restou, ele mesmo.
23:47 da noite, a ansiedade daquela cidade parecia uma pressão psicológica pra que ele esboçasse qualquer sorriso e fingisse estar amando, mas nem fingir ele sabia, e resolveu ficar ali sentado com um olhar vago.
Pegava a areia com a mão e ia soltando, observando o quão fina era, apenas para matar o tempo com alguma coisa desimportante.
"Ei, você aceita uma cerveja?"
Ele não tinha caído na real de que aquela frase era pra ele, olhou pra cima e viu uma mulher oferecendo o que parecia ser uma garrafa. Olhou pro lado pra ver se poderia ser com mais alguém, afinal, essas surpresas cotidianas eram tão raras. Mas aceitou ao perceber que só poderia ser com ele, e ela sentou ao seu lado e contou qualquer caso sobre a vida. Foi a primeira vez que ele riu. Ele lembrou como se ria, hahaha, tão fácil, tão espontâneo.
Descobriu que não era o único só, descobriu que era um bom ouvinte, ou ela uma boa falante.
23:55 E estavam todos se ajeitando no melhor lugar possível para a chuva de fogos que viria, eles ainda sentados. Ela parecia animada, contando sobre estar com um ou dois engradados daquela mesma cerveja só pra ela, dizendo que já nem ligava pelo fato de estar sozinha naquela cidade que ela nem conhecia, ela só queria ver de perto aquilo tudo.
Ele quieto porém prestando atenção em cada detalhe. Ela tinha um sorriso lindo, cabelo curto na medida certa e tatuagens nas mãos. E enquanto ela sorria, duas covinhas tímidas do lado direito apareciam, seu cabelo loiro pintado, parecia natural. E ela perguntou o motivo daquela solidão, ele respondeu apenas que talvez não tivesse sido o melhor ano da vida dele.
23:58 Ao ouvir aquilo ela o puxou pelo braço em direção ao mar e disse que o segredo era pular as 7 ondas, que ela não queria ver aquele sorriso triste quando chegasse o momento, ele sentiu aquele arrepio bom de quando alguém se preocupa com a gente, e sorriu. Um sorriso sincero.
23:59 Ela já tinha pulado umas 4 ondas, ele observando de uma distância de mais ou menos 2 metros. Ela veio andando, passo por passo, ele percebeu tatuagens nos pés também e como ela ficava bem com aquela roupa, de casaco por soprar um vento frio mas com a animação de quem sente um calor imenso. Ela deu um sorriso pra ele e indicou com o braço pra que ele fosse caminhando em direção a ela.
Ele foi, e de repente toda aquela tristeza sumiu, ele só pensava em uma coisa.
00:00 Fogos, gente feliz. Ele a puxou para um abraço de comemoração, ela o puxou para um beijo longo. E assistiram ao céu sorrindo todas aquelas cores, enquanto sorriam por dentro e por fora. E ele percebeu que seu ano novo sozinho, estava sendo tão bom que merecia um lugar guardado pra não ser esquecido. Ela o olhou pensativo e o puxou de novo, dando sorrisos nos intervalos de cada beijo. Ano novo havia começado, um ano novo, novo, tudo novo.