Era noite de ano novo. Era aquele cheiro de coisa boa contagiando os narizes das milhões de pessoas que aguardavam boas notícias. Aquele mar de branco, os risos contagiantes. Era ele ali sozinho, vendo a felicidade de todo mundo parecer maior apenas por se o único triste. Agora já era, aquele ano novo marcava nele qualquer sensação ruim, ele nem sabia o motivo de estar ali aguardando as 12 badaladas.
Sentado nas pedras da praia que logo mais celebraria a entrada de algo próximo mas que ele temia, fitava os navios onde quem tinha sorte, havia embarcado e pensava em nada. Estava apático.
Nada prendia sua atenção pois nada causava qualquer efeito, e ele segurava o choro pra não parecer fraco. Mas que ano... um ano onde tanta coisa deu errado que ele havia perdido a esperança no que ainda não se conhecia. Um ano onde tanto dele havia morrido.
E ele estava ali "comemorando" com a única pessoa que restou, ele mesmo.
23:47 da noite, a ansiedade daquela cidade parecia uma pressão psicológica pra que ele esboçasse qualquer sorriso e fingisse estar amando, mas nem fingir ele sabia, e resolveu ficar ali sentado com um olhar vago.
Pegava a areia com a mão e ia soltando, observando o quão fina era, apenas para matar o tempo com alguma coisa desimportante.
"Ei, você aceita uma cerveja?"
Ele não tinha caído na real de que aquela frase era pra ele, olhou pra cima e viu uma mulher oferecendo o que parecia ser uma garrafa. Olhou pro lado pra ver se poderia ser com mais alguém, afinal, essas surpresas cotidianas eram tão raras. Mas aceitou ao perceber que só poderia ser com ele, e ela sentou ao seu lado e contou qualquer caso sobre a vida. Foi a primeira vez que ele riu. Ele lembrou como se ria, hahaha, tão fácil, tão espontâneo.
Descobriu que não era o único só, descobriu que era um bom ouvinte, ou ela uma boa falante.
23:55 E estavam todos se ajeitando no melhor lugar possível para a chuva de fogos que viria, eles ainda sentados. Ela parecia animada, contando sobre estar com um ou dois engradados daquela mesma cerveja só pra ela, dizendo que já nem ligava pelo fato de estar sozinha naquela cidade que ela nem conhecia, ela só queria ver de perto aquilo tudo.
Ele quieto porém prestando atenção em cada detalhe. Ela tinha um sorriso lindo, cabelo curto na medida certa e tatuagens nas mãos. E enquanto ela sorria, duas covinhas tímidas do lado direito apareciam, seu cabelo loiro pintado, parecia natural. E ela perguntou o motivo daquela solidão, ele respondeu apenas que talvez não tivesse sido o melhor ano da vida dele.
23:58 Ao ouvir aquilo ela o puxou pelo braço em direção ao mar e disse que o segredo era pular as 7 ondas, que ela não queria ver aquele sorriso triste quando chegasse o momento, ele sentiu aquele arrepio bom de quando alguém se preocupa com a gente, e sorriu. Um sorriso sincero.
23:59 Ela já tinha pulado umas 4 ondas, ele observando de uma distância de mais ou menos 2 metros. Ela veio andando, passo por passo, ele percebeu tatuagens nos pés também e como ela ficava bem com aquela roupa, de casaco por soprar um vento frio mas com a animação de quem sente um calor imenso. Ela deu um sorriso pra ele e indicou com o braço pra que ele fosse caminhando em direção a ela.
Ele foi, e de repente toda aquela tristeza sumiu, ele só pensava em uma coisa.
00:00 Fogos, gente feliz. Ele a puxou para um abraço de comemoração, ela o puxou para um beijo longo. E assistiram ao céu sorrindo todas aquelas cores, enquanto sorriam por dentro e por fora. E ele percebeu que seu ano novo sozinho, estava sendo tão bom que merecia um lugar guardado pra não ser esquecido. Ela o olhou pensativo e o puxou de novo, dando sorrisos nos intervalos de cada beijo. Ano novo havia começado, um ano novo, novo, tudo novo.